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No Aikido não existe tal uso do corpo ou sentimento puramente de agressão gratuita, seus movimentos exigem algo mais no sentido de que o objetivo não é derrubar ou derrotar a situação, mas sim a harmonização das ações e sentimentos... através do estudo dos fundamentos naturais. Esses fundamentos ou leis naturais envolvem todos os diferentes aspectos das interações de forças do universo.

Nas artes marciais em geral existe a necessidade, por parte do praticante, de aprender a forma ou Kata. Isso é necessário para que ele desenvolva uma percepção de sua própria movimentação forçada(movimentação pré-concebida por seu próprio corpo e intelecto) e mais profundamente a influência de seu estado mental atual com a execução desta movimentação.


Essa movimentação forçada pode ser usada com êxito em uma situação extrema(risco de vida) onde seja necessário se defender de um agressor, porém o que deve ficar claro é que a defesa pessoal em si é somente um subproduto. O estudo principal das artes marciais vinculadas ao espírito do Budo é voltado para a conscientização do resultado restrito da defesa-pessoal.


O aluno deve tomar consciência através da execução da forma, que a mesma é restrita a uma determinada situação de agressão. Como provavelmente o aluno vai praticar com pessoas de diferentes características tanto físicas como psicológicas, ele acaba por perceber que o Kata não é uma estrutura fixa, mas sim fluida... suscetível a adaptações necessárias à sua execução dependendo das características únicas de cada ação de ataque. Essa liberdade, ou talvez seja melhor nos referirmos a ela como criatividade por parte do aluno durante a execução de um Kata, é considerado um estágio avançado no treinamento.


A criatividade e adaptabilidade foi basicamente definida pelo próprio fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, como Takemusu Aiki(Um termo freqüentemente utilizado pelo fundador para definir o espírito da verdadeira arte marcial japonesa. Em uma tradução livre seria algo como: O Nascimento de técnicas infinitas enraizadas no fluxo natural da Natureza.)

No início a forma(Kata) dos movimentos é executada de forma rígida(modelo pré-estabelecido), não se dando ao iniciante muita liberdade dentro da execução. Neste primeiro contato do aluno com a forma(Kata), o mesmo é obrigado a adaptar-se a ela e não o inverso.


Com o avanço da prática o aluno consegue executar a forma com mais liberdade, adaptando-se não mais tanto a ela mas sim a um momentum específico da execução da mesma(seqüências específicas que somadas levam à execução do movimento proposto). Sendo assim, o aluno começa a ver que um Kata na verdade é formado por vários Katas menores(com funções específicas)... ou seja, seqüências menores de movimentos que somados criam o Kata específico estudado.


Essa percepção detalhada o aluno mais avançado obtém de maneira quase inconsciente, não criando uma nova técnica diferente toda a vez que executa um Kata, mas sim uma nova execução de uma técnica específica(uma aplicação dos princípios inerentes a forma estudada, não necessariamente a construção formal da mesma).

A função do Uke(atacante) dentro do Aikido é bem específica: Empenhar-se em proporcionar um ataque onde seja possível ao Nague(aquele executa) estudar os princípios intrínsecos a uma técnica específica. Portanto, veja bem, é o Uke que oferece a oportunidade de estudá-la. Sem esta compreensão por parte do Uke, o estudo da forma torna-se inviável para o Nague.

O que diferencia o Aikido de outras artes marciais é exatamente esse ponto observado no parágrafo acima, não existe um atacante e um defensor, ou um vencedor e um perdedor. Existe na verdade pessoas ajudando-se mutuamente não através de vitórias ou derrotas, mas através do companheirismo.


Muitos professores e esportistas de outras artes marciais, e as vezes até mesmo do próprio Aikido, criticam essa visão fundamentalmente altruísta do Aikido, afirmando ser essa um ilusão... que o mundo em que vivemos hoje é altamente competitivo, e que você deve ser o melhor através da superação de outras pessoas... e que sem a competição externa o aluno torna-se uma ovelha entre lobos, que sem a competição o aluno não se empenharia tanto em aprender.

Para mim essa atitude de tornar-se o melhor pela superação de outras pessoas, ou depender de um estímulo externo deste tipo (competição simplesmente realizada para demonstrar ou reafirmar um sentimento de superioridade perante outro ser vivo), é obter uma confiança equivocada em si mesmo através da posse de um sentimento de superioridade.

 

 

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